21 Intervalos de confiança e testes de hipótese

Nesta sessão vamos verificar como utilizar o R para obter intervalos de confiança e testar hipóteses sobre parâmetros de interesse.

21.1 Média de uma distribuição normal com variância desconhecida

Considere resolver o seguinte problema:

Exemplo 1 O tempo de reação de um novo medicamento pode ser considerado como tendo distribuição Normal e deseja-se fazer inferência sobre a média que é desconhecida obtendo um intervalo de confiança. Vinte pacientes foram sorteados e tiveram seu tempo de reação anotado. Os dados foram os seguintes (em minutos):

2.9 3.4 3.5 4.1 4.6 4.7 4.5 3.8 5.3 4.9
4.8 5.7 5.8 5.0 3.4 5.9 6.3 4.6 5.5 6.2

Neste primeiro exemplo, para fins didáticos, vamos mostrar duas possíveis soluções:

1.

fazendo as contas passo a passo, utilizando o R como uma calculadora

2.

usando uma função já existente no R.

Entramos com os dados com o comando

> tempo <- c(2.9, 3.4, 3.5, 4.1, 4.6, 4.7, 4.5, 3.8, 5.3, 4.9, 
+            4.8, 5.7, 5.8, 5.0, 3.4, 5.9, 6.3, 4.6, 5.5, 6.2)

Sabemos que o intervalo de confiança para média de uma distribuição normal com variância desconhecida é dado por: \[ \left (\bar {x} - t_{\alpha /2} \sqrt {\frac {S^2}{n}}\;\;\;,\;\;\; \bar {x} + t_{1 - \alpha /2} \sqrt {\frac {S^2}{n}} \right ) \]

Vamos agora obter a resposta de duas formas diferentes.

21.1.1 Fazendo as contas passo a passo

Nos comandos a seguir calculamos o tamanho da amostra, a média e a variância amostral.

> n <- length(tempo) 
> n

[1] 20

> t.m <- mean(tempo) 
> t.m

[1] 4.745

> t.v <- var(tempo) 
> t.v

[1] 0.9920789

Com isto podemos montar o intervalo utilizando os quantis da distribuição \(t\).

> t.ic <- t.m + qt(c(0.025, 0.975), df = n-1) * sqrt(t.v/length(tempo)) 
> t.ic

[1] 4.278843 5.211157

21.1.2 Usando a função t.test

Mostramos a solução acima para ilustrar a flexibilidade e o uso do programa. Entretanto não precisamos fazer isto na maioria das vezes porque o R já vem com várias funções já disponíveis para procedimentos estatísticos usuais.

Para este exemplo específico a função t.test() pode ser utilizada como vemos no resultado do comando a sequir que coincide com os obtidos anteriormente.

> t.test(tempo)

 
        One Sample t-test 
 
data:  tempo 
t = 21.305, df = 19, p-value = 1.006e-14 
alternative hypothesis: true mean is not equal to 0 
95 percent confidence interval: 
 4.278843 5.211157 
sample estimates: 
mean of x 
    4.745

O resultado da função mostra a estimativa obtida da média (4.745), o intervalo de confiança a 95% (4.2788429, 5.2111571) e testa a igualdade de média a zero (p-value = \(\relax 1.0064249\times 10^{-14}\)), em um teste bilateral.

Os valores definidos no IC e teste de hipótese acima são defaults que podem ser modificados. Por exemplo, para obter um IC a 99%, em um teste unilateral para \(H_1: \mu > 3\) fazemos:

> t.test(tempo, alt = "greater", mu = 3, conf.level = 0.99)

 
        One Sample t-test 
 
data:  tempo 
t = 7.835, df = 19, p-value = 1.14e-07 
alternative hypothesis: true mean is greater than 3 
99 percent confidence interval: 
 4.179408      Inf 
sample estimates: 
mean of x 
    4.745

\(\Box \)

21.2 Teste \(\chi ^2\) de independência

Quando estudamos a relação entre duas variáveis qualitativas em geral fazemos uma tabela com o resultado do cruzamento desta variáveis. Em geral existe interesse em verificar se as variáveis estão associadas e para isto calcula-se uma medida de associação tal como o \(\chi ^2\), coeficiente de contingência \(C\), ou similar. O passo seguinte é testar se existe evidência que a associação é significativa. Uma possível forma de fazer isto é utilizando o teste \(\chi ^2\).

Exemplo Para ilustrar o teste vamos utilizar o conjunto de dados HairEyeColor que já vem disponível com o R. Para carregar e visualizar os dados use os comando abaixo.

> data(HairEyeColor) 
> HairEyeColor

, , Sex = Male 
 
       Eye 
Hair    Brown Blue Hazel Green 
  Black    32   11    10     3 
  Brown    53   50    25    15 
  Red      10   10     7     7 
  Blond     3   30     5     8 
 
, , Sex = Female 
 
       Eye 
Hair    Brown Blue Hazel Green 
  Black    36    9     5     2 
  Brown    66   34    29    14 
  Red      16    7     7     7 
  Blond     4   64     5     8

Para saber mais sobre estes dados veja help(HairEyeColor) Note que estes dados já vem “resumidos” na forma de uma tabela de frequências tri-dimensional, com cada uma das dimensões correspondendo a um dos atributos - cor dos cabelos, olhos e sexo.

Para ilustrar aqui o teste \(\chi ^2\) vamos verificar se existe associação entre 2 atributos: cor dos olhos e cabelos entre os indivíduos do sexo masculino. Portanto as hipóteses são:

\(H_0\) : não existe associação
\(H_a\) : existe associação

Vamos adotar \(\alpha =5\%\) como nível de significância. Nos comandos abaixo primeiro isolamos apenas a tabela com os indivíduos do sexo masculino e depois aplicamos o teste sobre esta tabela.

> HairEyeColor[,,1]

       Eye 
Hair    Brown Blue Hazel Green 
  Black    32   11    10     3 
  Brown    53   50    25    15 
  Red      10   10     7     7 
  Blond     3   30     5     8

> chisq.test(HairEyeColor[,,1])

Warning in chisq.test(HairEyeColor[, , 1]): Aproximação do qui-quadrado pode estar incorreta

 
        Pearson's Chi-squared test 
 
data:  HairEyeColor[, , 1] 
X-squared = 41.28, df = 9, p-value = 4.447e-06

O \(p-value\) sugere que a associação é significativa. Entretanto este resultado deve ser visto com cautela pois a mensagem de alerta (Warning message) emitida pelo programa chama atenção ao fato de que há várias caselas com baixa frequência na tabela e portanto as condições para a validade do teste não são perfeitamente satisfeitas.

Há duas possibilidades de contornar este problema: a primeira é agrupar categorias na tabela. Uma outra (e usualmente melhor) possibilidade é então usar o \(p-value\) calculado por simulação, ao invés do resultado assintótico usado no teste tradicional.

> chisq.test(HairEyeColor[,,1], sim=T)

 
        Pearson's Chi-squared test with simulated p-value (based on 2000 
        replicates) 
 
data:  HairEyeColor[, , 1] 
X-squared = 41.28, df = NA, p-value = 0.0004998

Note que agora a mensagem de alerta não é mais emitida e que a significância foi confirmada (p-valor < 0.05). Note que se você rodar este exemplo poderá obter um \(p-value\) um pouco diferente porque as simulações não necessariamente serão as mesmas.

Lembre-se de inspecionar help(chisq.test) para mais detalhes sobre a implementação deste teste no R.

\(\Box \)

21.3 Teste \(\chi ^2\) para aderência à uma certa distribuição

Exemplo Uma certa hipótese genética, se verdadeira deve produzir indivíduos com 4 fenótipos (A, B, C e D) na população seguindo a relação 9:3:3:1. Para verificar se a hipótese genética é plausível foi coletada uma amostra de indivíduos na população e obteve-se o seguinte número de indivíduos para cada fenótipo:

Fenótipo A B C D
N\(^o\) indivíduos 190 50 63 20

Teste a hipótese de que a hipótese genética é plausível com nível de significância de 5%.

Portanto as hipóteses são:

\(H_0\) : segue a distribuição esperada
\(H_a\) : não segue a distribuição esperada

O nível de significância foi definido como \(\alpha =5\%\) e a estatística de teste \(\chi ^2_c = \sum _i\frac {(o_i - e_i)^2}{e_i}\) tem distribuição \(\chi ^2_{(3)}\). Os comandos para efetuar este teste no R são:

> o <- c(190, 50, 63, 20) 
> e <- c(9,3,3,1)/16 
> chisq.test(o, p=e)

 
        Chi-squared test for given probabilities 
 
data:  o 
X-squared = 2.3223, df = 3, p-value = 0.5083

Portanto a conclusão é que não se rejeita \(H_0\) ao nível de 5%, ou seja, a hipótese genética é plausível.

\(\Box \)

21.4 Teste para o coeficiente de correlação linear de Pearson

Quando temos duas variáveis quantitativas podemos utilizar o coeficiente de correlação linear de Pearson para medir a associação entre as variáveis, desde que a relação entre elas seja linear.

Exemplo Para ilustrar o teste para o coeficiente linear de Pearson vamos estudar a relação entre o peso e rendimento de carros. Para isto vamos usar as variáveis wt (peso) e mpg (milhas por galão) do conjunto de dados mtcars para testar se existe associação entre estas duas variáveis.

As hipóteses são:

\(H_0\) : não existe associação (\(\rho = 0\))
\(H_a\) : existe associação (\(\rho \neq 0\))

Vamos ainda fixar o nível de significância em 5%. Os comandos para efetuar o teste e os resultados são mostrados a seguir.

> data(mtcars) 
> with(mtcars, cor(wt, mpg))

[1] -0.8676594

> with(mtcars, cor.test(wt, mpg))

 
        Pearson's product-moment correlation 
 
data:  wt and mpg 
t = -9.559, df = 30, p-value = 1.294e-10 
alternative hypothesis: true correlation is not equal to 0 
95 percent confidence interval: 
 -0.9338264 -0.7440872 
sample estimates: 
       cor 
-0.8676594

Portanto o p-valor acima mostra que a correlação encontrada de -0.8676594 difere significativamente de zero, ou seja existe evidência de associação (negativa) entre estas duas variáveis.

OBS: Note que uma análise mais cuidadosa deveria incluir o exame do gráfico entre estas duas variáveis para ver se o coeficiente de correlação linear é adequado para medir a associação.

\(\Box \)

21.5 Comparação de duas médias

Quando temos uma variável qualitativa com dois níveis e outra quantitativa o interesse em geral está em comparar as médias da quantitativa para cada grupo da qualitativa. Para isto podemos utilizar o \(teste T\). Há diferentes tipos de teste T: para amostras independentes com variâncias iguais ou desiguais, ou para amostras pareadas.

Exemplo Os dados a seguir correspondem a teores de um elemento indicador da qualidade de um certo produto vegetal. Foram coletadas 2 amostras referentes a 2 métodos de produção e deseja-se comparar as médias dos métodos fazendo-se um teste \(t\) bilateral, ao nível de 1% de significância e considerando-se as variâncias iguais.

Método 1 0.9 2.5 9.2 3.2 3.7 1.3 1.2 2.4 3.6 8.3
Método 2 5.3 6.3 5.5 3.6 4.1 2.7 2.0 1.5 5.1 3.5

As hipóteses são:

\(H_0\) : \(\mu _1 = \mu _2\)
\(H_a\) : \(\mu _1 \neq \mu _2\)

Vamos ainda fixar o nível de significância em 5%. Abaixo os comandos para efetuar o teste bilateral com variâncias iguais.

> m1 <- c(0.9, 2.5, 9.2, 3.2, 3.7, 1.3, 1.2, 2.4, 3.6, 8.3) 
> m2 <- c(5.3, 6.3, 5.5, 3.6, 4.1, 2.7, 2.0, 1.5, 5.1, 3.5) 
> t.test(m1,m2, var.eq=TRUE, conf=0.99)

 
        Two Sample t-test 
 
data:  m1 and m2 
t = -0.31724, df = 18, p-value = 0.7547 
alternative hypothesis: true difference in means is not equal to 0 
99 percent confidence interval: 
 -3.324208  2.664208 
sample estimates: 
mean of x mean of y 
     3.63      3.96

Os resultados mostram que não há evidências para rejeitar a hipótese de igualdade entre as médias ao nível de 1%.

\(\Box \)

21.6 Exercícios

1.

Revisite os dados milsa visto na aula de estatística descritiva e selecione pares de variáveis adequadas para efetuar:

(a)

um teste \(\chi ^2\)

(b)

um teste para o coeficiente de correlação

(c)

um teste \(t\)

2.

Queremos verificar se machos e fêmeas de uma mesma espécie possuem o mesmo comprimento (em \(mm\)). Para isso, foram medidos 6 exemplares de cada sexo e obtivemos os seguintes comprimentos:

Machos 145 127 136 142 141 137
Fêmeas 143 128 132 138 142 132

Obtenha intervalos de confiança para a razão das variâncias e para a diferença das médias dos dois grupos.

Dica: Use as funções var.test() e t.test()

3.

Carregue o conjunto de dados iris usando o comando data(iris).
Veja a descrição dos dados em help(iris).
Use a função cor.test() para testar a correlação entre o comprimento de sépalas e pétalas.